A sua mulher, minha avó Bárbara Tavares Proença não chegou a habitá-la,
porque morreu em 1889. Quando este adoeceu, o avó José era muito amigo
do Pasteur (este em França), que lhe aconselhou os ares da zona da
Guia, onde passava a "Corrente do Golf Stream"
e donde as andorinhas nunca saiam, verão ou inverno.
O avô comprou
várias parcelas, juntou-as com todas as autorizações, até de S.
Majestade o Rei D. Carlos, Chefe do Estado, construiu a casa.
A chamada
"banheira" nome tão engraçado e nunca "piscina" como estranhos
dizem, foi feita nessa ocasião, a tiros de dinamite, assim como a
cisterna, a cocheira e a casa dos caseiros.
Desgostoso, viúvo com
5(cinco) filhos tão pequenos, o meu avô alugou a casa.
Primeiros Inquilinos - Casal Bleck com seus filhos -
avós por exemplo da Teresa Lousã (hoje Condessa de Antas). Estiveram 4
anos seguidos com muito conforto. O recheio da casa era na maioria do
meu avô José, que o deixou assim como o da casa de S. Martinho do
Porto, à sua filha Isabel (que foi Freira Dominicana).
Minha mãe,
futura Condessa das Alcáçovas e seus 4 irmãos, também vieram para a
Guia, no verão, por 2 vezes em pequenos.
Segundos Inquilinos: Mª Amalia e Leonor de Carvalho Daun
e Lorena (solteiras) alugaram a "Guia" por algum tempo para mudarem de
ares. Mais tarde, dizia a minha mãe, o nosso parente Dr. António de
Lancastre, médico da familia Real: "Foi o melhor sanatório que possa
ter dado aos seus 14 filhos, estes ares da Guia, todos os Verões."
Terceiros Inquilinos: José Posser de Andrade e sua mulher, Maria Candida de S. Romão.
Minha mãe passou, na Guia, a lua-de-mel em 1900.
A rir, contava que
certa vez a cozinheira, de chapéu, entrou na sala a dizer que se ia
embora: "Que aquele ermo era muito longe de Cascais, não ganhava para
as solas".
Mais tarde, o avô emprestou a casa aos meus pais por várias
vezes. Morreu em 1912.
A Guia, considerada muito longe, ninguém a
queria. Ficou para a minha mãe no ano em que nasceu o seu 9º bébé em
Sintra, a minha irmã Teresa (Viscondessa da Corte).
O pai depois, fez
grandes obras, pelo Arquitecto Vilaça que fez a casa dos Monte Real. Embelezou-a
com azulejos e fez uma grande plantação de cedros e pinheiros. Plantava
por ano centenas deles e só vingavam 5 (cinco).
Nasceram na Guia, em
26/9/1910 as minhas irmãs, Maria da Piedade c.c Dr. Domingos de Câmara
Pinto Coelho e em 21/8/1922, Madalena c.c Carlos de Castilho Santos
Silva. Com esta era a 13ª dos filhos, foi tal a festa que os irmãos
espalharam pela estrada fora, areia encarnada.
Não existia a casa mais
divertida. A luz das velas e petróleo com os da casa, 10 criados,
4 mestras internas de quatro nacionalidades diferentes, durante a guerra de
14 a 18, nunca houve discussões, dizia a mãe.
Dormiram lá também os
primos direitos - os 8 Lavradio e Rio Maior - e no tempo que não havia
frigorifico nem máquinas.
Ninguém faltava à Missa e ao Terço diário.
Sobre os Azulejos
Os Azulejos da escada, do alpendre e
da entrada eram da Capela da Rua de São Bento, do Palácio da Flôr
da Murta.
O pai, Conde das Alcáçovas, comprou-os com licença de sua
Excelência o Cardeal Patriarca Mendes Belo.
Os do frontal da janela da Casa de Jantar e os restantes das duas salas, foram adquiridos no
Alentejo em caixotes pela viúva de Portugal (bric á brac das Janelas
Verdes) e o meu pai comprou-lhos sem ver como eram. Séc.XVII.
A Guia foi inaugrada em 1895 e foi sua última dona, D. Mª Teresa
de Saldanha Oliveira e Souza (Rio Maior), Condessa das Alcáçovas que
morreu em 1973.
Gozou dela 78 anos, todos os verões, com os seus 14 filhos.
1 de Julho de 1994.
Leonor de Lencastre Oliveira
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